Mundial Fifa - Rússia 2018
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Mundial Fifa - Rússia 2018

O país que em tempos remotos foi à conquista do mundo através dos mares, vai retomar nova epopeia planetária meio-milénio depois mas em relvados retangulares. A Europa já foi conquistada em 2016, com um golo de Éder que devia ter colorido a Torre Eiffel de verde e vermelho (houvesse fairplay gaulês). Quem fez de um peixe pescado no Atlântico Norte, como o bacalhau, uma especialidade gastronómica nacional, pode muito bem fazer outro proeza mundial a outros tantos milhares de quilómetros, mas rumando terra adentro, até ao coração da Rússia.
 
Futebol atual
 
O estatuto de campeão europeu não foi suficiente para evitar um trambolhão logo no jogo inicial da fase de qualificação. A derrota na Suiça, por 2-0, teve o condão de despertar Portugal e o resultado foi simples: nove vitórias seguidas noutros tantos jogos. Hungria, Ilhas Faróe, Letónia e Andorra cairam, naturalmente, perante a superioridade portuguesa, deixando as contas do apuramento direto para o último jogo, na Luz, frente à Suiça. Um golo em cada parte (Djorou na p.b. e André Silva) deram a vitória a Portugal e o passaporte para a Rússia, colocando a Suiça no play-off. Portugal fez 27 pontos, no máximo de 30 possíveis (só Bélgica, Alemanha e Espanha fizeram mais) com apenas quatro golos sofridos e várias goleadas: 6-0 vs Andorra, 6-0 e 5-1 vs Ilhas Faroé ou 4-1 vs Letónia.

Quis o sorteio que a estreia portuguesa seja com Espanha, com contas recentes por acertar (Mundial 2010 e Europeu 2012). São as duas seleções mais fortes do Grupo B e o confronto ibérico será um dos poucos jogos entre gigantes na primeira fase. Dois anos depois do título europeu, 13 jogadores voltaram a ser chamados por Fernando Santos (seriam 14, se Danilo estivesse bem fisicamente), destacando-se as ausências de André Gomes e Éder, este último nome incontornável na conquista de Paris.

As chamadas de André Silva, Gelson, Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e Rúben Dias ajudam a baixar a média etária de uma seleção que continua a ter como base a experiência defensiva (Bruno Alves, Pepe e José Fonte), a solidez do meio campo (William, Moutinho, Adrien e João Mário) e o talento do melhor futebolista do Mundo: Ronaldo. Com CR7 mais fixo no terreno, ao lado da referência André Silva, o Mundial pode servir para mostrar ao mundo valores emergentes na construção ofensiva. Será assim, Gelson, Guedes e Bernardo?

 

 

No Podcast "11 inicial" pode ouvir a discussão à volta da forma como foi formado o grupo de Portugal, com Espanha, Marrocos e Irão.

 

A seleção que quina nas meias-finais

As meias-finais costumam ser o nosso final. A seleção das quinas atingiu por cinco vezes esta avançada eliminatória no Euro, outras duas num Mundial e uma nos Jogos Olímpicos. Em oito presenças nas meias-finais, apenas por duas vezes Portugal sorriu - apenas 25% de sucesso, um exclusivo do Euro. E com um carrasco recorrente: a França (nas meias-finais dos Euros de 1984 e de 2000 e do Mundial de 2006).
 
Mas a grande lacuna histórica de Portugal foi até 2002 o insucesso nas fases de qualificação - antes de 2002, Portugal tinha participado apenas em dois Mundiais, um registo pobre, aquém dos talentos individuais que foi produzindo. Se Eusébio brilhou em grande com 9 golos no Mundial de 1966 (e um brilhante 3º lugar na surpreendente estreia na competição), se Figo ou Cristiano Ronaldo também mostraram a sua classe no maior evento futebolístico de nações, o mesmo não se pode dizer dos Cinco Violinos ou de Chalana, que nunca jogaram num Mundial, ou mesmo de Futre, que mal se viu no México 86, manchado pelo caso de Saltillo.
 
A nível clubístico, Portugal é dominado totalmente pelos três grandes Benfica, FC Porto e Sporting, com uma desigualdade histórica sem paralelo noutros países - nem mesmo na Grécia. Em 83 campeonatos disputados, só por duas vezes o título de campeão foi ganho por clubes mais pequenos. Lá fora, o panorama não muda muito. Só os três grandes ganharam grandes competições internacionais. Benfica e Porto são bicampeões europeus - o último junta ainda os dois títulos intercontinentais -, o Sporting já venceu uma Taça dos Vencedores das Taças.
 


 
Fadados para fados

Se quisermos resumir a música portuguesa em quatro parágrafos, podemos, para simplificar, separá-la em seis segmentos, todos eles inter-relacionáveis. Comecemos pelos intérpretes do fado, os fadistas, a face mais visível da nossa música lá fora, sobretudo das mulheres. A maior diva é sem dúvida Amália Rodrigues, a grande embaixadora que conquistou o mundo. Mas ao longo dos últimos vinte e cinco anos, outras fadistas têm também uma pesada agenda internacional. Mísia abriu caminho para outras cantoras sempre de malas prontas como Mariza, Ana Moura ou Carminho, e mais tarde ou mais cedo, Gisela João. Mas o mundo tem andado distraído com a outra metade igualmente valiosa dos fadistas, os homens, desde a lenda de Alfredo Marceneiro ao eclético gigante Carlos do Carmo, sem esquecer, de gerações mais recentes, Camané ou Ricardo Ribeiro - todos eles expoentes máximos da alma do fado lisboeta. O segundo segmento é o dos instrumentistas do fado, em especial da guitarra portuguesa, que teve como ícone maior Carlos Paredes, herdeiro direto e filho de outro mestre do mesmo instrumento das seis ordens duplas de cordas. Artur Paredes, Armandinho, Mário Pacheco, António Chainho, Ricardo Rocha ou o super-recrutado José Manuel Neto são outros gigantes da guitarra portuguesa, mas de Lisboa.

No terceiro segmento, o da música tradicional portuguesa, uma das suas grandes consciências, a destapar as canções mais melancólicas escondidas pelo Antigo Regime, foi sem dúvida José Afonso, mais conhecido ainda como Zeca Afonso. As raízes folclóricas tornaram-se também uma das grandes bases de outros músicos de intervenção como Sérgio Godinho, José Mário Branco ou Fausto, só para referir alguns dos maiores, num país recheado de músicos emblemáticos, incluindo nesta área dos cantautores, onde merece estar também o pianista e guitarrista Jorge Palma (mesmo que vindo dos mundos do jazz e do rock). Os Trovante, os Gaiteiros de Lisboa ou as Danças Ocultas são alguns dos projetos que melhor repensaram a música tradicional, tal como a Brigada Victor Jara, que tem reinterpretado como coletivo musical o trabalho etnográfico altamente meritório de várias figuras, nomeadamente o corso Michel Giacometti. O cante alentejano (classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade, tal como o fado), as polifonias das Beiras (de onde se destacou o Grupo de Cantares de Manhouce, que contou com a cantora Isabel Silvestre), as gaitas-de-foles transmontanas ou os Pauliteiros de Miranda são algumas das expressões tradicionais mais carismáticas de um país musicalmente tão diverso que nem parece pequeno.

O rock, que preenche o quarto segmento, tem talvez como o maior visionário Pedro Ayres de Magalhães. Fundador em Portugal do punk (através dos Faíscas) e do new wave (por intermédio dos Corpo Diplomático), elevou a exigência profissional do rock nacional através dos Heróis do Mar logo na primeira metade dos anos 80. A partir de algumas influências anglo-saxónicas e das camadas de sintetizadores, Ayres Magalhães começou a desvendar um som mais nacional nos Heróis do Mar que o levaria para a sua maior criação: os Madredeus, mescla de música de câmara e fado com pop, que os fez percorrer os palcos de todo o mundo. O rock nacional, ainda muito imberbe nos anos 60, tem como uma das primeiras grandes referências José Cid, através da banda psicadélica Quarteto 1111, e mais tarde autor a solo de um dos maiores discos do rock progressivo, "10.000 anos depois entre Vénus e Marte", de 1978. Mas o verdadeiro boom do rock português só se dá em 1980, através dos grandes viveiros urbanos da Grande Lisboa (UHF, Xutos & Pontapés ou a Salada de Frutas) e do Porto (Rui Veloso, Táxi ou os GNR), facilmente renovando-se através de outros grupos vitais como os Rádio Macau, Delfins ou a Sétima Legião, ou através do fenómeno do lendário António Variações. O rock nacional foi também criando o seu nicho underground, através de bandas como os Mler Ife Dada, os Mão Morta e os Pop Dell'Arte, ou do punk, como os Peste & Sida e os Censurados. E é precisamente das margens, mais precisamente do metal gótico, que veio a banda de rock mais internacional de todas: os Moonspell.  

Podemos chamar ao quinto segmento de novas linguagens, mais audíveis a partir dos anos 90, com a expansão do hip hop nacional despoletada pela compilação "Rapública", e que nos foi dando ícones como General D, os Da Weasel, os Mind Da Gap, Sam The Kid ou, mais recentemente, a rapper Capicua. É do cosmopolitismo urbano dinamizado pelos descendentes da África Lusófona e pela cultura DJ que nasce outro dos projetos mais bem sucedidos lá fora: os Buraka Som Sistema, influenciados pelo kuduro. E tem sido das raízes africanas que se tem revestido muita da música nacional, desde João Afonso a Sara Tavares. Reservamos o sexto segmento para o jazz, que nos tem dado grandes eventos, desde o histórico Cascais Jazz (programado por Luis Vilas-Boas) ao Jazz em Agosto (na Gulbenkian), e grandes músicos, como o pianista Bernardo Sassetti, o contrabaixista Carlos Barretto ou, mais recentemente, o saxofonista Ricardo Toscano. É do jazz que têm vindo alguns casos de sucesso junto do grande público, como o flautista Rão Kyao, a dupla Maria João & Mário Laginha ou Salvador Sobral, o primeiro vencedor português de um Festival da Eurovisão, através da balada 'Amar pelos Dois'.
    
 

 

Cozinhados do Atlântico

O peixe em Portugal é de muito boa fama. Mas o que tem mais fama vem de milhares de quilómetros a norte. Falamos, claro, do bacalhau, cozinhado no nosso país de mil e uma formas - à Gomes de Sá, à Braz, espiritual, cozido ou frito em pastéis. Mas não falta o peixe junto à vasta costa, em especial as populares sardinhas. O truque nacional é o de saber que não vale a pena cozinhar demasiado. Já vêm cozinhados do Atlântico.

As espécies aquáticas são particularmente apreciadas para petiscar, desde os percebes ou as amêijoas, às cracas (nos Açores) ou as lapas. Mas os petiscos mais estranhos para os estrangeiros são os caracóis, muitos apreciados pelos portugueses do centro e do sul. Portugal é também um país de muito boas sopas, a mais transversal o caldo verde, sem esquecer a sopa de pedra (no ribatejo), a sopa de pão ou o refrescante gaspacho (ambos no Alentejo). Quase tudo o que o português come é acompahado por pão. E digamos, sem pudores, a padaria nacional é de sonho. Basta pensarmos na Broa de Avintes, no Pão de Mafra ou no Pão Alentejano, saudando o fenómeno de popularidade nacional recente do bolo do caco vindo da Madeira.

Quem pensar que não somos um país de carnes, engane-se e muito. Basta pensarmos na luxúria carnívora do cozido à portuguesa, na qualidade da carne barrosã ou de alcatra (nos Açores), na robustez da posta mirandesa, ou no fofinho leitão da mealhada, sem esquecer, em formas de sandes, as bifanas ou as portuenses francesinhas. E somos provavelmente o país europeu que usa mais o arroz (para todos os gostos, desde o arroz de cabidela ao arroz de marisco). A queijaria também é abundante, pensemos no Queijo da Serra, no Queijo de Azeitão, no Queijo de Serpa ou no Queijo de São Jorge.

Nas bebidas, Portugal tem grande cultura de vinhos. O mais internacional é de longe o Vinho do Porto, numa gama de vinhos generosos que inclui o Vinho da Madeira, o Moscatel (sobretudo da região de Setúbal) ou o injustamente ignorado Vinho de Carcavelos. A nível de líquidos para entradas ou sobremesas, o Licor Beirão reconquistou projeção, num país também dado à Ginjinha (em Lisboa e na região de oeste), ao Licor de Poejo (em especial no Alentejo), ao medronho ou à amêndoa amarga (ambos populares no Algarve). É da Madeira que vem o cocktail mais famoso do país: a bem amarelada poncha. Para acompanhar as refeições propriamente ditas, não faltam bons vinhos tinto e branco, das regiões do Douro, do Dão, Lisboa ou do Alentejo, sem esquecer o espumoso vinho verde tinto do Minho.    

A nível de doçaria, os pastéis de nata (com destaque para os Pastéis de Belém) são a gula mais turística, quase seguida pelos Travesseiros de Sintra. Boas tentações, sem dúvida. Mas as Lérias de Amarante, os Pastéis de Vouzela, os Ovos Moles de Aveiro ou as açorianas Donas Amélias merecem igual fama, num país que se divide muito pelo festivo Bolo Rei.
 


O país dos descobridores a ser descoberto

O país que em tempos foi à descoberta de outros mundos, através dos grandes navegadores como Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral, está hoje a ser descoberto por uma avalanche de turistas que não pára de crescer. Lisboa (e Sintra), Porto (e o Douro), o Algarve ou a Madeira são as grandes atrações, mas há segredos deslumbrantes (felizmente?) ainda guardados entre nós como o Gerês (no Minho), o Montesinho (em Trás-Os-Montes), o Alentejo ou os Açores.
 
As grandes epopeias marítimas tornaram-se parte da vida e da inspiração de um dos nossos maiores poetas, Luís de Camões (1524-80), que viajado pelos quatro cantos do mundo, criou dez cantos para o grande épico literário nacional, "Os Lusíadas". Fernando Pessoa (1888-1935), outro dos nossos maiores poetas, também viajou muito, mas dentro da sua Lisboa e sobretudo dentro da sua cabeça de onde criou os seus vários heterónimos. Mais dado às prosas e às crónicas, o humorado Eça de Queiroz viajou muito com o seu olhar pela sociedade portuguesa do século XIX, século fértil em outros grandes escritores como Almeida Garrett ou Camilo Castelo Branco. Já o Nobel da Literatura José Saramago ou António Lobo Antunes são, sem paralelo, os dois gigantes da literatura portuguesa das últimas décadas.
 
Na pintura, os grandes expoentes dos últimos 50 anos são duas mulheres: Vieira da Silva e Paula Rego. Mas da primeira metade do século XX, é cada vez maior o impacto da obra de Amadeo de Souza Cardoso e do multifacetado e satírico Almada Negreiros (também escultor, poeta e até artista de circo). Ambos já mereceram recentemente grande exposições da Gulbenkian, centro fulcral da vida cultural portuguesa. O cinema nacional tem tido a tradição de integrar o circuito dos grandes festivais. O centenário Manoel de Oliveira, com um ritmo de produção anual, teve saúde para conseguir a filmografia mais vasta, que apanha nove décadas diferentes (de 1931 até quase à sua morte em 2015). O Cinema Novo de Paulo Rocha, o espírito sarcástico de João Cesar Monteiro, o olhar social de Pedro Costa ou a sensibilidade feminina de Teresa Villaverde coloriram um país cinéfilo que conseguiu internacionalizar a atriz Maria de Medeiros (presente em filmes de Hollywood como "Henry & June" ou "Pulp Fiction") ou Joaquim de Almeida.
 
Os portugueses sabem tão bem navegar como correr. Os campeões olímpicos Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro que o digam. E a saltar também não nos temos dados mal, como já bem mostrou Nelson Évora, que também já subiu ao degrau mais alto do pódio olímpico através do triplo salto. O atletismo tem sido, a par do futebol, generoso a dar alegrias aos portugueses. Mas há outras modalidades emergentes, como o judo (com destaque para a pentacampeã europeia Telma Monteiro), o ténis de mesa (Marcos Freitas tem já CV de peso) ou a canoagem (o campeão do mundo e europeu, e já medalhado olímpico, Fernando Pimenta é o nosso praticante mais glorioso). Mas terminamos como começamos… com as bolas nos pés. E devemos ser mesmo bons de bola: atuais campeões europeus de futebol, de futsal e futebol de praia, e já bem habituados há muitos anos aos malabarismos de Ricardinho em piso de pavilhão e de Madjer na areia. Os dois parecem ser eternos.   

 

 

 

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