Mundial Fifa - Rússia 2018
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O futebol são 11 contra 11 e nos quartos-de-final perde a Inglaterra. Ou espera... Nos penaltis, também. Contra a Inglaterra, a Alemanha ganha sempre - Gary Lineker tinha razão. Contudo, agora há Harry Kane e atrás de si um futuro promissor de gerações novas e uma nação de muitos milhões sedenta por ir mais longe no Mundial, mesmo que não o ganhe. Com a concentração e reflexos de James Bond, a irreverência dos Rolling Stones e o génio de Shakespeare, a Inglaterra pode deixar de ser um gigante adormecido.

Futebol Atual

Habituada a estar nos grandes palcos, só por duas vezes Inglaterra obteve lugares de destaque: além do título, em 1966, ficou na 4ª posição, em 1990. Uma seleção habituada a marcar presença nos grandes palcos e sempre com ambições renovadas... mas que nos grandes momentos fica abaixo das expetativas, com apenas uma presença nos quartos de final nos últimos seis Mundiais.

Desta vez, na mente dos adeptos ingleses, estão os recentes e inéditos êxitos das camadas jovens: Campeão do Mundo sub-17 e sub-20 e campeão Europeu Sub-19. Sucessos que podem inspirar a seleção principal na Rússia, cuja base é formada por jogadores com passado nas equipas jovens e por um treinador que nos sub-21 ingleses alcançou mais de 80 por cento de vitórias. Gareth Southgate, de 47 anos, é agora o responsável técnico depois da fugaz passagem (67 dias) de Sam Allardyce, demitido por questões de justiça.

A base tática da equipa continua assente numa estrutura de três médios mais fixos (Henderson, Dier e Alli) deixando a criatividade a cargo dos velocistas Rashford e Sterling. No entanto, é no ataque que mora a principal estrela da equipa: Harry Kane (24 anos) vai ter na Rússia a oportunidade de mostrar que os 105 golos nos últimos quatro anos na liga inglesa (duas vezes melhor marcador e outras duas como segundo melhor marcador) fazem do avançado do Tottenham um dos mais temíveis e instintivos avançados do futebol mundial.

 

 

A nação-berço do futebol

Três espinhos travam as campanhas esperançosas da seleção inglesa: a Alemanha (o grande carrasco inglês), o desempate através das grandes penalidades (para nossa alegria no Euro 2004 e no Mundial de 2006) e os quartos-de-final (por oito vezes, a equipa dos três leões ficou entre 5º e 8º num mundial). Falar de penaltis em Inglaterra é um exercício de humor negro. Em sete séries de penaltis nas grandes competições, apenas por uma vez a Inglaterra saiu-se melhor. Em relação ao carrasco alemão, a Inglaterra parece ainda estar a pagar a factura do único título mundial obtido, diante do antigo inimigo das duas Guerras Mundiais, em pleno Estádio do Wembley, em 1966. A Inglaterra capitaneada por Bobby Moore recebeu a taça Jules Rimet das mãos da Rainha Isabel II, depois de um 4-2 após prolongamento, com um golo polémico, talvez o mais controverso de sempre, onde ainda hoje se discute se a bola rematada por Hurst e que embateu na barra caiu para lá da linha ou não. Desde então, nos duelos (diretos e indiretos) com a Alemanha, nas cinco vezes seguintes em Mundiais e em Europeus, a Mannschaft levou sempre a melhor.
 
A seguir ao grande feito da equipa de 1966 do guardião Banks e do atacante carequinha Bobby Charlton, o melhor que a seleção fez foi em 1990, sob os comandos técnicos do nosso bem conhecido Bobby Robson, quando se tornou 4ª classificada, num Mundial que revelou o talento de Paul Gascoigne (carinhosamente tratado pelos compatriotas como Gazza), com David Platt e Chris Waddle em boa forma, e um eficaz Gary Lineker, ele que já tinha sido o melhor marcador do México '86 - a primeira vez que um melhor marcador de um Mundial não atingia as meias-finais. Como país criador da modalidade, a Inglaterra aproveitou a menor experiência dos adversários para se tornar campeã olímpica por duas vezes seguidas, em 1908 e em 1912, já noutra era.
 
É impressionante a legião de fãs que acompanha a seleção inglesa, fazendo de cada estádio um ambiente caseiro e tornando as ruas dos países-anfitriões uma Grã-Bretanha cantarolante e bem sonora. Porém, uma praga tem persistido, sobretudo com a seleção: o hooliganismo. Os problemas graves com clubes como o Liverpool, o Manchester United ou o Chelsea foram sendo resolvidos, exceto na memória que não elimina as tragédias de Heysel (39 adeptos da Juventus mortos, em 1985) e de Hillsborough (96 mortos, em 1989). O país do fair-play, do campeonato em que os treinadores rivais gesticulam para o relvado lado a lado e onde não há redes há muitas décadas, é manchado ainda por arruaceiros, ou hooligans (muitos deles ligados a movimentos de extrema-direita), que seguem a seleção inglesa e deixam as cidades por onde passam num estado de sítio.
 
É em Inglaterra que está o campeonato mais competitivo, a Premiership, onde têm jogado alguns clubes campeões europeus. O Liverpool, por exemplo, ganhou a Liga dos Campeões há bem menos tempo (em 2004-05) que o campeonato inglês (o último dista já de 1989-90). O próprio Nottingham Forest tem mais títulos de campeão europeu (dois) que de campeão nacional (apenas um), um caso único obtido por um treinador único, o controverso e carismático Brian Clough. O papa-campeonatos Manchester United já venceu três títulos europeus, o primeiro deles frente ao Benfica de Eusébio (em 1968), o segundo numa reviravolta emocionante no último minuto frente ao Bayern (em 1999), e o terceiro já com Cristiano Ronaldo como estrela principal (em 2008). Mas a nível internacional, o maior inglês continua a ser o Liverpool, com cinco Taça dos Campeões Europeus e três Taças UEFA. O mais esquecido Aston Villa (o grande clube de Birmingham) e o Chelsea (de Londres) também podem orgulhar-se de um título de campeão europeu, o mesmo já não podem fazer os londrinos Arsenal e Tottenham, o Manchester City ou o Everton, apesar da grandeza dos quatro.
 
O futebol português deve muita da sua evolução competitiva ao espírito disciplinador de vários treinadores ingleses, muitos deles campeões em Portugal, como os leoninos Randolph Galloway (3) e Malcolm Allison, os benfiquistas Ted Smith, Jimmy Hagan (3) e John Mortimore (2) e o portista Bobby Robson (2), num total de 12 títulos amealhados pela gente da Velha Albion. Já os jogadores do país não foram assim tão influentes por cá e mostraram o seu talento pontualmente, como o possante avançado leonino Ralph Meade nos anos 80 ou o benfiquista Brian Deane, ponta-de-lança veloz dos anos 90 que deu algum brio à frágil equipa treinada por Souness.
 
 

 
 
Brit top

Acusam os japoneses de se apropriarem das invenções dos outros e de as tornarem ainda melhores. No que respeita ao rock e à pop, o mesmo se poderia dizer dos ingleses, que se têm baseado numa música americana para a tornarem ainda melhor. Foi o que fizeram os Beatles (1960-70), os fab four da "música americana com sotaque inglês", como lhes disseram quando chegaram ao outro lado do Atlântico. No meio da insanidade que os rodeou - uma loucura juvenil com borbulhas de adolescência chamada Beatlemania - os quatro músicos de Liverpool foram os mais lúcidos, sabendo parar de tocar, quando se saturaram de não se ouvir em palco, fartos de tanta histeria e de um sistema de amplificação ridiculamente baixo. Mergulharam no estúdio, isto é na eternidade, com obras-primas como "Rubber Soul" (de 1965), "Revolver" (de 1966), "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (de 1967), "The White Album" (de 1968), ou "Abbey Road" (de 1969). Bem mais dados ao palco eram os rivais Rolling Stones, que também ajudaram a mitificar a década de 60, mas com uma atitude bem mais rebelde que contrastava com a mensagem de amor e paz dos Beatles. Começaram nas versões de blues, passaram a compor rock & roll e até brincaram ao disco-sound. Mas a British Invasion - a grande invasão à América de Norte de bandas britânicas dos anos 60 - fez-se também com os festivaleiros e destrutivos The Who e os Animals, numa carruagem que os Kinks demoraram a apanhar, apesar da carteira de grandes canções que também tinha - de 'Waterloo Sunset' a 'Lola'.
 
Sempre que havia grandes movimentos musicais, os ingleses estavam metidos. Na corrente do rock psicadélico, apareceram os Pink Floyd, que se agigantaram depois num planeta à parte. No glam-rock, surgiram os Roxy Music e David Bowie, que se agigantou depois num sistema de planetas mutante. A fundação do hard-rock e do heavy metal foi encabeçada pelos Led Zeppelin e pelos Black Sabbath, juntando-se-lhes bandas como os Queen do carismático Freddie Mercury, que depois formaram uma galáxia apenas à sua escala. O rock progressivo foi dominado pelos Yes e pelos Genesis, a banda de onde saíram para trilhos musicais muito distintos o ex-vocalista Peter Gabriel e o baterista Phil Collins. O punk deixou o seu rasto de destruição graças aos fugazes Sex Pistols e aos mais duradoiros Clash. O ska em modo de new wave foi animado pelos Specials e pelos Madness. O pós-punk mais sombrio foi romantizado pelos matemáticos Joy Division e pelos mais excêntricos Bauhaus. O neo-romantismo levou adolescentes à loucura, graças aos Duran Duran e aos Spandau Ballet. O conceito de indie-pop desenvolveu-se à custa dos Smiths e de Lloyd Cole. O movimento de shoegaze, das camadas de guitarras distorcidas, foi também dominado pelos Ride e pelos Slowdive. O madchester foi um movimento de rave-rock que teve como figuras de proa os Stone Roses e os Happy Mondays. O trip-hop - misto de dub, hip hop, rock e soul – teve como centro laboratorial a cidade de Bristol, de onde saíram os Massive Attack, os Portishead e Tricky. O britpop alimentou a rivalidade entre os Blur (meninos da classe média do sul) e os Oasis (descendentes da classe operária do norte), dois mundos ingleses opostos e em colisão… E assim de repente, num só parágrafo, percebemos que os ingleses ajudaram a escrever a história da música urbana do século XX.
 
A música inglesa é um viveiro de grandes estrelas, que atingiram a dimensão de concertos de estádio. Esta glória a alta escala foi também sentida pelo pianista Elton John, pelo guitarrista blues-rocker Eric Clapton, pelos ecléticos The Police seguidos por Sting a solo, ou mais recentemente os atinados Coldplay. Não têm faltado grandes ícones femininos em Inglaterra. A imprevisível Kate Bush desdobrou-se em centenas de personagens, Kim Wilde foi muito mais que a cara bonita do synth-pop, a rocker PJ Harvey tornou-se na grande diva indie, as Spice Girls divertiram-se com o girl power, a soul (alma) de Amy Winehouse vive para lá da sua morte, o rap da destemida M.I.A. cheira a caril e Adele tem um vozeirão do tamanho da sua popularidade.
 
Há mais figurões que enriquecem o cenário da música inglesa: como o mundo gótico de fábulas dos Cure; as crónicas sociais sobre o modo de vida britânico de Jarvis Cocker e dos seus Pulp; o experimentalismo cancioneiro dos Radiohead; as pontes entre folk e rock de Richard Thompson; e a serenidade ambiental do cerebral Brian Eno. Mas haveria muito mais para dizer sobre a fértil Inglaterra musical.
 
Já que falámos de história de música, e da mesma ser escrita pelos ingleses, há que referir que há também uma palavra a dizer na parte técnica, se nos lembramos de duas das marcas de amplificadores mais míticas e, vá, bonitas: os Marshall, que ajudaram a potenciar a atuação de Jimi Hendrix em Monterey Pop Festival em 1967, e a Vox (também marca de instrumentos), a predileta dos Beatles.
 
 

 
Uma sanduíche de rosbife e uma pint, please!
     
Comer para os ingleses parece ser uma mera necessidade utilitária, não um prazer cultural. Habituamo-nos a vê-los a comer refeições de fast-food em sítios inóspitos com algum desprazer ou desinteresse. O fish & chips - filetes de bacalhau com batatas fritas - não é o melhor cartão-de-visita para um forasteiro. Mas é possível comer muito bem em Inglaterra, tal como o chef televisivo Jamie Oliver bem tem lembrado, sobretudo em pubs. É nestes espaços escuros e confortáveis que se comem umas boas pies: empadas gigantes normalmente com carnes. O rosbife é uma velha tradição inglesa, assada ao domingo e reaproveitada ao longo da semana. Se há povo que gosta de ketchup são os ingleses: provém de um molho oriental que os britânicos deram a conhecer ao mundo no século XVIII, sobretudo na ainda colónia da América do Norte. Se julgam que os ingleses resolvem molhar tudo com ketchup, enganam-se. A Inglaterra tem uma grande cultura de mostarda, tal como de molho inglês, além do gosto por especiarias indianas, outro hábito adquirido através das colónias. Desde o século XVI, as batatas são o acompanhamento preferido. Um dos pontos em comum com a nossa cozinha é a tradição britânica de comer peru no Natal... É graças à ordem de um aristocrata inglês, John Montagu 4th Earl of Sandwich, que se generalizou a sanduíche no século XVIII tudo por causa do seu vício do jogo, que não lhe dava tempo para comer, a não ser que fosse uma fatia de carne assada metida num pão. O hábito pegou e funciona hoje em todo o mundo, sobretudo o mundo workaholic.
 
Um dos ex-líbris da cozinha britânica é evidentemente o pequeno-almoço britânico, tão robusto como o almoço, composto de ovos estrelados, baked beans, salsinhas e bacon, sem esquecer o acompanhamento do café (daquele aguado) ou do chá, das tostas torradas, além da papa de aveia, mais conhecida como porridge (alimentícia e extremamente fácil de fazer). Outro momento afamado da mesa inglesa é o chá das cinco - com uma esmagadora preferência por chá preto, usado com leite. A marca mais famosa é talvez o Earl Grey, conhecido pelas suas latas charmosas. O que acompanha o chá inglês é tão ou mais saboroso, como é o caso dos scones (com doce de morango ou com manteiga), um hábito que já se enraizou nas nossas casas de chá. As bolachas de manteiga são particularmente queridas, numa doçaria célebre também pelo apple crumble, um crocante de maçã levado ao forno e com toque de canela. Por cá, é recorrente cozinhar-se o bolo inglês, feito de nozes e frutas cristalizadas numa forma e decorado com raspas de laranja. Dos chocolates, o mais emblemático é o After-Eight, uma pequena caixa de requintados pacotinhos de chocolate preto com menta que exige formalidade e a educação de se servir aos outros com moderação. Torna-se um ato social, à mesa, embora haja muitos ataques solitários à socapa, tão bom que o chocolate é. É tão popular que dá nome a sabores de gelados.
 
Tratando-se de Inglaterra, é impossível não falar de queijo. O mais expandido é o queijo cheddar, da família do nosso queijo da Terceira, e fácil de encontrar em Portugal. A sua qualidade é muito variável. O mais localizado queijo stilton, de odor mais forte e com as suas veias azuis salientes, é outro produto lácteo merecedor de devoção.
 
Voltemos aos pubs, mas por causa da cerveja, bem amada pelos ingleses, sobretudo as pints - copo de mais de meio-litro de vidro mais fino. Há também as half-pints que são metade da medida. Os lúpulos característicos usados em cervejas mais resistentes que se podiam transportar entre as várias colónias do Império Britânico levaram a mais uma criação inglesa, a chamada Indian Pale Ale (que podia chegar à Índia ou às Índias Ocidentais), generalizada hoje no mundo da cerveja artesanal. Outro líquido muito britânico e refrescante é o gin tónico (gin and tonic), criado pela armada britânica na Índia: um copo embaciado de gelo, borbulhado por água tónica, onde navega uma rodela de limão ou um oitavo de lima, com uma medida de gin - o Bombay Sapphire e o Tanqueray são os gins ingleses mais famosos, mas há outros vindos do país ainda melhores. As cidras também são servidas em pubs ingleses, sobretudo a Strongbow.
 
A Inglaterra também se come em Portugal. Fazem mal se forem ao George Pub, na baixa lisboeta, apenas para beberem. Claro que o podem fazer, com um serviço de bar óptimo, apetrechado nos gins e na variedade de cervejas e whiskeys, num local repleto de televisões, ideal para ver jogos de futebol e de râguebi. São muito fortes nos bifes, em especial o beef Wellington, e nas sobremesas.
 
 


 
O povo que respira a (fazer) rir

Os ingleses são mestres do humor. São brilhantemente auto-críticos, com um olhar mordaz para o continente europeu que nunca levaremos a mal porque tem piada. O grupo mais revolucionário de todos foi o sexteto do Monty Python, os "Beatles do humor", que apoiados nessa plataforma maravilhosa chamada BBC, cresceram de séries de TV para filmes, para digressões ao vivo e até para discos. Foram mestres do absurdo com sketches ainda hoje recordados mais de quarenta anos depois. É da BBC que chegou a Portugal uma das britcoms mais marcantes dos anos 80, o historiador e ficcionado Blackadder, onde falava Rowan Atkinson que emudeceu como Mr. Bean a partir dos anos 90. Outra sitcom da época que pôs muitos portugueses a rir foi "Sim, Senhor Primeiro Ministro", que através do humor fino britânico punha a nu os joguetes da política de Londres. Mais brincalhão com situações do que com palavras, Benny Hill (1924-1992) era também frequente na TV portuguesa nos anos 80. No início deste milénio, criou culto o mockumentary "The Office", um escritório peculiar dirigido por um egocêntrico interpretado grandiosamente por Rick Gervais. Nos anos 60, com mais ação, houve algumas séries míticas como "O Santo", com o futuro James Bond Roger Moore, ou "Os Vingadores", com John Steed e a sua brava assistente numa Inglaterra surrealista. A criançada tem tido contacto com séries de animação que, sem se aperceberem, muitas delas são inglesas como os Teletubbies, Bob O Construtor, e já em bonecos de plasticina, Wallace & Gromit e O Carteiro Paulo, estes últimos bem ingleses, com os carros no sentido oposto ao nosso e tudo. Além dos documentários da vida animal da BBC com a voz de David Attenborough (com quem Herman José já brincou, incluindo no Festival da Eurovisão deste ano em Portugal), há uma série memorável dos anos 80, que revivia a Inglaterra académica e faustosa dos anos 20 e 30, sob narração e interpretação de Jeremy Irons: "Reviver o Tempo em Brideshead".
 
O oscarizado Jeremy Irons é um dos muitos grandes atores que a Inglaterra vai criando no mundo do teatro e que o mundo do cinema vai absorvendo - aquele notável papel duplo dos gémeos médicos "Irmãos Inseparáveis" (de 1988) de David Cronnenberg é só mais um para a coleção. A nível de atores, o mais popular do cinema mudo em todo o mundo é um inglês, Charles Chaplin (1889-1977), que mesmo emigrado para Hollywood, nunca esqueceu as origens pobres londrinas, retratadas no "Garoto de Charlot" (de 1921). O homem da bengala e de andar trapalhão foi um artista de cinema multifuncional: ator, realizador, compositor, guionista e editor. Bem mais sonora era a voz trocista e ziguezagueante de Peter Sellers (1925-1980), um autêntico personagem em si mesmo que dispensava grandes especificidades nos papéis que lhe cabiam – dizem que era o único ator que o cineasta Stanley Kubrick fez questão de tratar bem. O também inglesíssimo Michael Caine não precisou de mudar o seu sotaque para se impor no cinema americano. Não falámos ainda das atrizes inglesas? E que atrizes! Vivien Leigh (1913-1967) não ficou só célebre pelo seu papel de Scarlett O'Hara no filme "E Tudo o Vento Levou" (de 1939). Décadas mais adiante, Emma Thompson não precisou sequer de sair do ambiente inglês vitoriano de "Regresso a Howards End" e afins para ganhar o Óscar de Melhor Atriz em Hollywood. A nível de realizadores, não há nenhum inglês mais famoso que o mestre de suspense Alfred Hitchcock (1899-1980), dotado de humor negro e um jeito, através do que não se vê, para desenvolver a sensualidade das suas atrizes (Grace Kelly, Ingrid Bergman, e tantas outras) e para alimentar o medo no espetador, através de tramas muito bem engendradas. David Lean foi outro cineasta inglês que se impôs em Hollywood mas foi muito mais expedicionário, em clássicos transcontinentais como "A Ponte do Rio Kwai" (1957), "Lawrence da Arábia" (1962), "Doutor Jivago" (1965) ou "Passagem para a Índia" (1984). Mas antes de sair da sua ilha, ninguém esquece aquela paixão amorosa nascida num café de estação ferroviária na Inglaterra da II Guerra Mundial, entre dois comprometidos, em "Breve Encontro" (1945) - um dos filmes mais ternos da história da sétima arte. Michael Powell, em coautoria com o húngaro Emeric Pressburger, entrou na eternidade do cinema, sobretudo com o filme "A Matter of Life and Death", sobre a transcendência de um piloto de guerra para o mundo após a morte. Nos domínios da ficção cientifica, Ridley Scott foi outro cineasta inglês a impor o seu cunho autoral em Hollywood através de filmes que já ninguém se esquece como "Alien" (1979) ou "Blade Runner" (1982). Danny Boyle também emigrou para o outro lado do Atlântico, mas antes criou marca nos anos 90 com o suspense aterrorizante de "Shallow Grave" (de 1994) e as desventuras de heroinómanos em "Trainspotting" (de 1996), com muito humor negro britânico à mistura. Richard Attenborough (1923-2014) não precisou de sair da Grã-Bretanha para ser aclamado em Los Angeles. O seu cinema de intervenção histórica e anti-colonialista teve como marco maior o multi-oscarizado "Gandhi" (de 1982), sobre o grande libertador do povo indiano. Ken Loach e Mike Leigh levaram avante o seu esquerdismo e respetiva sensibilidade dentro da realidade inglesa, criando culto internacional entre os cinéfilos. Peter Greenaway preferiu olhar para a sociedade inglesa de forma mais surrealista. Em sentido contrário ao normal, o norte-americano Stanley Kubrick veio para a Europa fazer vários filmes ingleses, o mais imortalizado de todos a "Laranja Mecânica" (de 1971), uma espécie de paródia hooligan de uma sociedade britânica futurista. É inglês e bem sofisticado um dos mais célebres personagens de cinema de sempre, o agente secreto bem viajado James Bond, obrigado a ter todos os sentidos em alerta para os perigosos inimigos espalhados pelo mundo. Nem nos one night affairs com as bons girls descansa.

A obra literária do dramaturgo William Shakespeare (1564-1616) tem sido base de muita da produção teatral e audiovisual. Que o diga o malogrado ator (e também realizador) Laurence Olivier. Peças como "Hamlet", "Romeu e Julieta" ou "Otelo" nunca largarão os teatros. O século XVIII deu alguns clássicos à literatura inglesa como "Robinson Crusoe" de Daniel Defoe (1719), o teste de um sobrevivente solitário numa ilha deserta. Mas o século XIX bateu tudo. Charles Dickens é, sem dúvida, um dos mais populares, com obras eternas como "David Copperfield" (de 1850). Outra forma pertinente de olhar a sociedade veio de Jane Austen (1775-1817), com as suas alfinetadas humoradas à Inglaterra mais rural, longe do rebuliço urbano. No mundo mais fantasioso, a literatura do país entreteve (e ainda entretém) o mundo com "Alice no País das Maravilhas" (de 1865) de Lewis Carroll ou o mais macabro "Frankenstein" (de 1818) de Mary Shelley - já merecedores de diversas adaptações cinematográficas. Já do século passado veio a poesia de D. H. Lawrence (1885-1930) e de Rudyard Kipling (1865-1936), o feminismo da linha da frente de Virginia Woolf (1882-1941), a escrita de viagens de Bruce Chatwin (1940-1989), a ficção cientifica de H. G. Wells (1866-1946) ou a premonição futurista de "1984" em 1949 por parte de George Orwell. Se John le Carré é especialista em livros sobre espionagem - candidatos imediatos a recriações cinematográficas - os ingleses são especialistas em livros policiais. Agatha Christie é talvez a escritora do género mais famosa, criadora de personagens com que estamos familiarizados, como a detetive da terriola Miss Marple e o belga Poirot. Arthur Conan Doyle podia ser escocês mas o seu personagem mais famoso era um detetive inglês e operava na Baker Street, em Londres: dava pelo nome de Sherlock Holmes e todo o mundo o conhece a ele e ao seu braço-direito Watson. Na literatura mais fantasiosa, um dos mestres foi J. R. R. Tolkien (1892-1973), senhor da trilogia "O Senhor dos Anéis". A partir dos anos 90, a escrita sobre o oculto vendeu como nunca graças a J. K. Rowling com a sua heptalogia sobre Harry Potter, que pôs muitas crianças e adolescentes a ler. O mesmo aconteceu no passado com os livros das aventuras dos "Cinco" de Enid Blyton, ou os diários sobre a crise de crescimento de Adrian Mole, imaginados por Sue Townsend (1946-2014).

A indústria automóvel inglesa é tendencialmente icónica, ao ter criado modelos como os pequeninos Minis (do grupo Austin), os majestosos Rolls Royce, os todo-terreno Land Rover, os carros desportivos da Aston Martin ou a gama de motos da Triumph. Igualmente icónicos são os táxis londrinos pretos (fabricados pela Austin), com bancos de frente e de costas, e os buses de dois andares, pouco recomendadas para curvas apertadas a grande velocidade. Há também marcas de roupa para vários gostos: a Umbro para os mais desportistas, a Burberry para os mais clássicos ou a marca de lingerie Agent Provocateur (mitificada por anúncios ousados, incluindo de Kylie Minogue) para as mulheres.

Em termos desportivos, a Grã-Bretanha é um ecossistema à parte, onde criquete ou as corridas de cavalos ocupam muitas páginas. O râguebi é muito popular, com a catedral no estádio de Twickenham e um título mundial alcançado em 2003. Os numerosos torneios de golfe e o histórico duelo de remo entre as universidades de Oxford e de Cambridge também são muito mediatizados. A cultura de pubs estimula numerosos praticantes de snooker (alguns dos melhores do mundo são ingleses, um deles o pentacampeão do mundo Ronnie O'Sullivan) e jogadores de dardos. Naqueles raros dias de bom tempo, lá vemos os idosos com mais dinheiro a jogar bowls naqueles impecáveis relvados, em tão bom estado quanto o do court central de Wimbledon no início do mítico torneio de ténis – o mais importante dos quatro Grand Slams. Neste ecossistema à parte, não há qualquer atenção para modalidades como o andebol (a Inglaterra nem sequer tinha seleção), o basquetebol ou o voleibol - que merecem a atenção mundial e a validade olímpica. Mas a Inglaterra tem tido grandes atletas noutras modalidades. O fundista Mo Farah destacou-se no atletismo com duas dobradinhas de ouro olímpico nos 5000 metros e 10000 metros em 2012 e em 2016. O atual campeão do mundo de Fórmula 1 é inglês, Lewis Hamilton, já com quatro títulos planetários. O maior remador de sempre é o pentacampeão olímpico Steve Redgrave, que arrecadou ainda nove títulos mundiais.
 
 

 

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