EDP Cool Jazz: El Salvador em cimeira ibero-americana

 19 de julho de 2018

Frente a um amontoado simpático de gente no bem verdejante Parque Marechal Carmona, em Cascais, o traquina Salvador Sobral soube pendurar-se na missão de um espetáculo à volta das suas influências, com a imprevisibilidade desbocada que lhe corre no sangue. Ele é uma criança reguila que não consegue parar de fazer palhaçadas quando não canta. Faz caretas, saltita ou senta-se na cadeira onde se emociona exuberantemente com os brilharetes dos seus músicos - são eles o pianista Júlio Resende, o contrabaixista André Rosinha e o baterista Bruno Pedroso, com o acréscimo esta noite do saxofonista Ricardo Toscano.

Nos seus discursos, brinca à ironia e o público percebe e ri-se quando acha que "seria bom cantar com Caetano, não faz mal sonhar" ou quando desabafa que "nunca apareceria num concurso de talentos". Mete-se com um espetador que está a sair da Plateia VIP. Ou pede para levantar o braço a quem esteve presente no seu concerto de primeira parte na edição de 2016 do Cool Jazz ? quase ninguém levantou o braço.

A imprevisibilidade do que diz é a imprevisibilidade do que canta, em modo flutuante e transformista, do falsete à vocalização grave, do sussurro ao grito enlouquecido, do cantor ao ator. Neste concerto de natureza autobiográfica, estas fáceis mutações foram também estílisticas, e apanharam o bolero, o MPB, os blues, a soul, sempre com o jazz à superfície.


Do chat com a audiência vai facilmente para o Chet da sua idolatria, Chet Baker, de quem faz uma versão de 'I'm a Fool to Want You' onde simula com as palmas da mão o seu trompete imaginário.

Do seu sobral, cresce uma árvore genealógica latino-americana de grande copa, que está bem à vista nesta noite no Parque Marechal Carmona, quando se ouve o bolero de 'Si Me Comprendieras' ou o brasileiro 'Encontros e Despedidas' de Milton Nascimento.

Pelo meio, vai da quinta ao quarto, quando faz uma incursão autobiográfica mais íntima ao falar da irmã Luísa (ausente no concerto, dedicada à maternidade) como a sua maior influência pessoal. Tudo isto para cantar uma composição da mana, 'I Might Stay Away'.

Vindo de um concurso de talentos e descoberto por Salvador Sobral no hospital, "o novo amigo" das jogatanas de bola Tiago Nacarato é chamado a palco onde, à guitarra acústica, protagoniza dueto em dois temas.

Claro que Salvador canta o novo tema do seu reportório, o bem espanholado 'Cerca del Mar', e ainda o tema vencedor da Eurovisão de 2017, 'Amar pelos Dois', onde o cantor passa nas calmas o testemunho ao público para cantar a balada.

Depois, atravessa o Atlântico para atacar o standard jazzístico de Cole Porter, 'You'd Be So Nice to Come Home To', e o piano blues de 'What Would I Do' do ídolo Ray Charles, depois do qual Salvador Sobral repete alguns diálogos do biopic "Ray".

No encore, aparece Janeiro (apadrinhado por Salvador no Festival da Canção deste ano) para apresentar as suas 'Contas no Estrangeiro'. Com Janeiro na guitarra elétrica, o dueto a sós em palco com Salvador fez-se de amizade e de assobios.

Depois, o cantor faz uma aliteração bilingue quando parte do 'Zamba del Olvido' do uruguaio Jorge Drexler para 'Viver de Ouvido' de António Zambujo, já com Sobral ao piano, onde também canta o otimista 'Overjoyed'.

Para o final, já com a banda em campo, Salvador Sobral despede-se indo ao cancioneiro infantil cubano, para transformar o embalo junto à almofada de 'Drume Negrita' numa ?desbunda? boa para pedir mojitos e noitada.

Antes do excelente concerto de uma hora e 45 minutos de Salvador, subiu a palco a sua escolha para primeira parte: o angolano Toty Sa Med, um romântico e um solista principesco da guitarra elétrica.

Fez uma dedicatória a Nelson Mandela e aos seus 100 anos e usou muito o dialeto do kimbundu, incluindo na versão de Bonga, 'Mona Ki Ngi Xiça'.

A samplagem ao vivo dos sons que foi fazendo com a guitarra acústica, da percussão na madeira do instrumento ao pequenos dedilhados, criou uma robustez de camadas que acompanharam o seu cante e desenrascaram os constrangimentos da solidão em palco.

 

 

 

 

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