Pescadores recolhem mais de meia tonelada de artes de pesca no mar dos Açores

Pixabay/igorovsyannykov
 10 de setembro de 2021

Está a decorrer, no Arquipélago dos Açores, o primeiro de três concursos anuais de recolha de artes de pesca fantasma. 

É a primeira edição e são os próprios pescadores que fazem a recolha no mar, durante o período da safra de atum. 

Estão a concurso seis embarcações que fazem a pesca do atum ao largo de todas as ilhas dos Açores. Todos estes barcos levam a bordo observadores do Programa de Observação das Pescas dos Açores (POPA).

Este ano, o concurso faz-se em modo projeto-piloto, uma vez que há "restrições a nível de locais de descarga".

A competição resulta de uma parceria entre o Observatório do Mar dos Açores (OMA), o Programa de Observação das Pescas dos Açores e a Internacional Pole and Line Foundation (IPNLF). 

 

 

“No primeiro dia, um dos barcos recolheu uma série de cabos com mais de 400 quilos (…) era um emaranhado de cabos de 'nylon', possivelmente seria um aparelho de palangre, ou de fundo ou de superfície, perdido”, especificou Carla Dâmaso, diretora do OMA. 

 

 

Desde 9 de agosto, já foram recolhidas mais de meia tonelada de artes de pesca fantasma. A responsável diz que é uma quantidade considerável, uma vez que o concurso se foca apenas no lixo relacionado com a pesca e não noutro tipo de lixo.

Em 2019, o OMA, em conjunto com o Instituto do Mar fez um estudo, através de inquéritos, durante a safra de atum desse ano para "determinar a quantidade de plástico que é perdido pela frota de pesca de atum dos Açores e em termos de aparelhos de pesca, na pescaria de atum com arte de salto e vara dos Açores, perde-se cerca de um quilo de plástico por ano". Carla Dâmaso considera que se trata de um valor muito baixo. “Este concurso também pretende, de alguma forma, fazer a compensação, ou seja, os pescadores de atum ao recuperarem as artes abandonadas estão a compensar aquilo que perdem (por ano). Este ano, à partida, já têm perto de 500 anos de crédito tendo em conta aquilo que perdem e aquilo que já recuperaram”, adianta.

 

 

 

O facto destas artes de pesca estarem no mar dos Açores, quer dizer que foram abandonadas pelos pescadores locais?

Carla Dâmaso responde que não, que “pode vir de qualquer parte”. Segundo Carla Dâmaso, esse “é um trabalho que poderá, eventualmente, ser feito à posteriori (…) na realidade o que tem sido recolhido, tem sido maioritariamente bóias, alguns refletores, cabos, portanto tudo itens que estão há muito tempo no mar, porque a maior parte deles já têm uma fauna marítima associada - os percebes plágicos (…) alguns é possível saber porque algumas bóias até têm a matrícula do barco. Isso é um trabalho que nós vamos saber depois quando anunciarmos os resultados do concurso deste ano”. A responsável acrescenta que os Açores ficam na fronteira do giro do Atlântico Norte e [o lixo] pode vir de qualquer parte.”

 

 

 

E depois, o que é feito a todo o lixo recolhido do mar?

Terminada a recolha, “todos esses itens acabam por ser reutilizados pelas próprias embarcações de pesca”, como o que aconteceu às centenas de metros de cabo recolhidas de cerca de 400 quilos, mas “esse cabo estava em perfeitas condições e foi reutilizado (…) as bóias a mesma coisa, as que estão em boas condições continuam a ser usadas. O que não está em condições é encaminhado para os devidos locais, portanto se é plástico e está em condições de ser reciclado vai para o plasticão”.

O objetivo é, assim, sensibilizar e a organização espera que o “passa-palavra” funcione. A organização espera que para o ano haja mais pescadores a quererem participar.

Segundo Carla Dâmaso, os pescadores são recetivos a este tipo de iniciativas, “porque não é apenas por causa de existir um concurso que os pescadores recolhem aquilo que encontram no mar, claro que há coisas que não têm valor e este tipo de incentivo ajuda a que eles o recolham. A verdade é que isto acaba por ser um reconhecer das boas práticas que já estão instituídas”.

“Uma rede abandonada [no mar] continua a pescar, se bem que depois não há ninguém para ir recolher aquilo que pesca”. 

O lixo maior como um palangre, uma rede, “o lixo maior tem este grande impacto de poder matar ou ferir, essencialmente, os animais marinhos. Tudo isto à medida que se vai degradando e se transforma em microplásticos tem depois mais uma série de impactos” e sobre os quais ainda não há muita informação sobre que impacto há na vida marinha e nos humanos, refere a diretora do OMA.

Aquilo que se sabe e que Carla relembra é que “os microplásticos atraem algumas tóxicas, alguns componentes químicos. Pelo menos isso ao serem ingeridos são absorvidos pelo organismo de quem os ingere”.

Este ano, não haverá vencedores nem vencidos, uma vez que se trata de um projeto-piloto e todos os pescadores de atum que participam vão receber brindes simbólicos e biológicos no final da safra, em outubro. Nos próximos dois anos, o concurso volta a ser realizado, nos Açores.

No dia 16 de novembro, Dia Nacional do Mar, o OMA anuncia o total de artes recolhido.

De referir que em 2015, foi realizado um concurso semelhante, nos Açores, que resultou numa recolha de cerca de uma tonelada e meia de lixo.

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