"Dawn FM": a Torre de Abel

Capa do disco Dawn FM
 13 de janeiro de 2022

Para Abel Tesfaye, mais conhecido como The Weeknd, o limite é o céu. Por isso, tem sido agregador de estrelas. Namorou com a beldade Bella Hadid ou com Selena Gomez. Costuma pisar a passadeira vermelha. E atrai facilmente os grandes nomes para colaborar com ele, num naipe imparável de gente mediática como os Daft Punk, Kendrick Lamar, Drake, Lana Del Rey ou Ed Sheeran. 
 
Em terra, tem tido o melhor que alguns humanos podem sonhar, como uma mansão multiusos onde lazer e trabalho estão quase lado a lado (isto é, piscinas e estúdio de gravação), ou uma garagem que parece um museu de carros de topo de gama. 
 
A vida tem-lhe permitido saborear o sucesso ao mais alto nível, das mais diversas formas: recordes no Spotify, nº1s do maiores tops (incluindo da Billboard), o respeito massivo da crítica e até o haltfime show no Super Bowl no ano passado. 
 
Acontece porém que Abel Tesfaye está insatisfeito. Tem quase dez anos na alta-roda, mas nem sempre as coisas lhe correm bem. Depois de se ter imposto como um novo fenómeno musical no seu período de mixtapes, em 2013 o seu álbum de estreia "Kiss Land" soou demasiado desgarrado e tenro, tendo desiludido e dividido opiniões.  
 
O passo em frente foi afinal em falso e havia equívocos a resolver para um artista underground, de rastas espetadas à Basquiat, que queria ao mesmo tempo o sucesso à mais alta escala, nunca renegando as oportunidades para usufruir dos caprichos do mundo VIP. 
 
Havia um caminho pop a fazer, sem se desfazer do r&b alternativo que era, afinal, o seu ecossistema. Gradualmente, de álbum para álbum, foi corrigindo erros e aperfeiçoando a comunhão entre dois mundos que sempre puderam ser compatíveis.    
    
Chegado agora ao seu quinto álbum, "Dawn FM", The Weeknd está no pico de uma pirâmide, que é a sua Torre de Babel. Tesfaye pode repetir os assuntos que sempre gostou de tratar: a cidade, a noite, o sexo, a deriva, a luxúria, o questionamento da sua vida de celebridade e as drogas. Mas encaminha-os para um limiar, entre a noite e a manhã, de forma ainda mais monumental que no disco antecessor "After Hours".  
 
Tal como as grandes cidades, The Weeknd nunca dorme. Tem estado em permanente progressão. À dose de excelentes músicas e à retaguarda de um leque produtores, Abel Tesfaye refina e encontra uma direcção artística e uma visão conceitual. "Dawn FM" é uma rádio às cinco da manhã, transmissora dos maiores tormentos de alma àquela hora. Dessa Torre de Babel, ou, no caso, de Abel, The Weekend toca no céu em piloto automático, num disco que nunca pára na ligação entre as faixas. Essas ligações ao éter são mais de fade in do que fade out, tal como a claridade que se anuncia no céu. 
 
Neste novo álbum, a alma de The Weeknd está ligada à máquina. Os sintetizadores são tão presentes, que funcionam como o medidor de tensão da sua alma, variando os sinais conforme os estados de disposição do artista.
Às vezes são passadas de elefante que abanam o chão, outras vezes esses sintetizadores são pincelados de forma cintilante, a desenhar estrelas num céu em início de processo de claridade. E é no puro formato de synth-pop que Abel Tesfaye sabe empacotar a canção perfeita com cola aos ouvidos, como o caso de 'Less than Zero'. Por alguma razão, The Weeknd sabe chegar ao topo dos tops. 
 
Em algumas das músicas de "Dawn FM", repete-se a evocação de uma soul cândida no fantasma do jovem Michael Jackson quando ainda domesticado pela Motown, que a excelente voz de The Weeknd gosta de fazer lembrar. Quando o hip hop é convidado a entrar, The Weekend usa a seu bel-prazer a arte dos outros como as ferramentas do esteta que é cada vez mais. Tanto afaga o registo rap calmo e sereno de Tyler, The Creator em 'Out of Time', como apimenta ainda mais o tema 'I Heard You're Married' através dos serviços de Lil Wayne. 

 

The Weeknd também gosta do flirt ao disco-sound e quando o faz, como em 'Take My Breath', parece que está a fazê-lo novamente na pista de dança da nave espacial dos Daft Punk. Mas a dupla francesa já não existe. Mas é dela que nos lembramos outra vez quando The Weeknd vaii buscar o produtor Quincy Jones, em 'A Tale by Quincy', para um depoimento editado que se torna um interlúdio, numa fórmula similar ao mais longo 'Giorgio by Moroder' dos Daft Punk, a partir de uma entrevista ao produtor Giorgio Moroder. 
 
É bom não nos esquecermos que em "Dawn FM" estamos a ouvir uma rádio no final da madrugada. Alguns interlúdios são jingles de rádio. Uma voz calma de um radialista tenta apaziguar a alma do ouvinte [ou será a de The Weeknd?] com mensagens espirituais. Em 'Every Angel is Terrifying', The Weeknd sente a chamada da morte, num absurdo transcendente onde emerge um spot radiofónico na voz do cineasta Josh Safdie a vender o pack de uma vida para além da existência terrena - "an experience you'll never forget". 
 
E no final, é o ator Jim Carey que fala connosco na despedida, a anunciar as portas da morte... ou do paraíso que aclara e nos surge. É já 2022 a brilhar, com o seu primeiro grande álbum.    

Artigo de opinião.

 

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