Peritos da ONU alertam para aumento da intensidade e frequência dos incêndios

NUNO ANDRÉ FERREIRA / LUSA
 23 de fevereiro de 2022

As alterações climáticas e as mudanças no uso da terra estão a tornar os fogos florestais mais frequentes e intensos, com um aumento previsto até 50% dos incêndios extremos até ao final do século, alerta um relatório das Nações Unidas.

De acordo com os peritos que elaboraram o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com sede em Nairobi, até o Ártico, até agora praticamente imune, enfrenta um risco crescente de incêndios florestais.

Segundo o documento, hoje divulgado, a crise climática e a mudança no uso da terra resultarão num aumento global dos incêndios extremos de até 14% em 2030, 30% até ao final de 2050 e 50% até ao final do século.

“Os relâmpagos e o descuido humano sempre causaram incêndios descontrolados, mas as mudanças climáticas causadas pela atividade humana, as mudanças no uso da terra e a má gestão da terra e das florestas fazem com que os incêndios florestais encontrem com mais frequência as condições certas para serem destrutivos”, refere o estudo, que contou com a participação do Centro ambiental norueguês GRID-Arendal.

"Os incêndios florestais queimam por mais tempo e impõem mais calor nos lugares onde sempre ocorreram, mas também estão a aparecer em lugares inesperados, como turfeiras secas ou durante o degelo do permafrost", acrescentou o relatório do PNUMA, que envolve todos os continentes.

Além de destruir grandes partes de alguns dos últimos refúgios de biodiversidade do planeta, como o Grande Pantanal do Brasil, os incêndios também estão a emitir enormes quantidades de gases poluentes para a atmosfera, facilitando o aumento das temperaturas, mais secas e mais incêndios.

Os especialistas aconselham os governos a envolverem os líderes indígenas na gestão dos fogos, bem como a investir no planeamento, prevenção e recuperação de incêndios florestais, em vez de se concentrarem apenas em apagá-los.

Pedem ainda aos governos que adotem uma nova fórmula de investimento, com dois terços dos gastos dedicados ao planeamento, prevenção, preparação e recuperação, e o terço restante para a resposta.

Atualmente, as respostas diretas aos incêndios florestais recebem mais da metade dos gastos relacionados, enquanto o planeamento e a prevenção recebem menos de um por cento.

“As respostas atuais dos governos aos incêndios florestais muitas vezes estão a colocar dinheiro no lugar errado", disse Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA, acrescentando: “Temos que minimizar o risco de incêndios extremos estando mais bem preparados - investir mais na redução do risco de incêndio, trabalhar com as comunidades locais e fortalecer o compromisso global de combater as mudanças climáticas”.

Da mesma forma, o relatório sublinhou a importância de a comunidade internacional, através das Nações Unidas, também se envolver na gestão dos fogos, que até agora é quase da exclusiva responsabilidade dos governos nacionais.

“Os incêndios florestais devem ser colocados na mesma categoria da resposta humanitária global que os grandes terremotos e inundações”, observou o estudo do PNUMA.

De 2002 a 2016, cerca de 423 milhões de hectares foram queimados a cada ano, uma área total equivalente à da União Europeia.

A África é o continente mais afetado por esses incêndios, acumulando cerca de 67% da área global anual queimada.

“Devemos aprender a gerir melhor e mitigar o risco de incêndios florestais que ameaçam a saúde humana e os nossos meios de subsistência, a biodiversidade e o clima global”, disse Susan Gardner, diretora da Divisão de Ecossistemas do PNUMA.

Os peritos avisam ainda que os incêndios florestais afetam desproporcionalmente as nações mais pobres do mundo e têm um impacto que se estende por dias, semanas e até anos após o desaparecimento das chamas, impedindo o progresso em direção aos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e aprofundando as desigualdades sociais.

No documento, defendem que a restauração de ecossistemas é "uma via importante" para mitigar o risco de incêndios florestais. A restauração de zonas húmidas e a reintrodução de espécies como os castores, a recuperação de turfeiras, a manutenção da distância entre a vegetação e a preservação de zonas tampão com espaços abertos são alguns exemplos dos investimentos essenciais na prevenção, preparação e recuperação.

O relatório foi divulgado poucos dias antes da 5.ª sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA), que acontecerá de 28 de fevereiro a 02 de março, em Nairóbi.

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