Grandes biopics sobre músicos

 14 de agosto de 2019

Os biopics sobre músicos são quase um subgénero cinematográfico à parte. O realizador João Maia entregou-se à árdua tarefa de recriar a vida de um dos maiores fenómenos do rock português, António Variações, no filme "Variações". O feito é ainda mais heroico se tivermos em conta que no cinema português, só há praticamente um filme a abordar diretamente a vida de um artista musical da primeira divisão, falamos de "Amália - O Filme", de Carlos Coelho da Silva (de 2008) - sobre a rainha do fado Amália Rodrigues.
 
A aproximação da estreia de "Variações", já na próxima semana, leva-nos a uma revista histórica sobre os maiores filmes ficcionados sobre músicos - portanto, excluem-se os documentários.  

Mozart exuberante na grande tela
No mundo da música clássica, não há compositor tão eternizado por Hollywood como Mozart, que os cinéfilos passaram a conhecer melhor pelo seu segundo nome, "Amadeus", no filme de Milos Forman (1984). O riso inconfundível da personagem sobre Mozart (interpretado por Tom Hulce) não condiz com o ar austero dos retratos a óleo. Mas pelo menos numa coisa o invejoso companheiro musical Salieri ganhou-lhe: o Óscar de Melhor Ator Principal foi para o ator F. Murray Abraham que encarnava o compositor italiano e não para o endiabrado intérprete de Mozart. Nunca um biopic sobre um músico foi tão oscarizado como "Amadeus".

 

Tão frontal como o rock
Na Sétima Arte, há alguns biopics que assumiram o risco ingrato da recriação direta e mais aproximada de algumas das estrelas do rock, não evitando a maior palidez do ator intérprete na comparação com a magia insuperável do ídolo retratado. Mas o trabalho hercúleo de Rami Malek na pele do grande performer dos Queen, Freddie Mercury, em "Bohemian Rhapsody" (de 2018) valeu-lhe pontos... e prémios com que qualquer ator de Hollywood sonharia, como um Óscar ou um Globo de Ouro, além de todos os outros galardões. Quem vai para a linha de guerra filmar cenas de combate noturnas no Vietname, como fez Oliver Stone em "Platoon" (1986), pode tornar-se um ranger de biopics e encenar algo ainda mais difícil: a vivência dos Doors e do vocalista rebelde Jim Morrison, tal e qual como aconteceu nos anos 60 nos Estados Unidos, em salas e clubes da altura incluídos, na longa "The Doors: O Mito de uma Geração" (de 1991). Oliver Stone não evitou alguns clichés e, com isso, algumas falanges de admiradores dos Doors não perdoaram, lembrando que Val Kilmer (o ator que interpretou o Rei Lagarto) não era Jim Morrison. O que é certo é que à custa deste filme, os Doors ganharam novos fãs pelo mundo inteiro. Tal como Jim Morrison, também Ian Curtis, o vocalista dos Joy Divison, era um performer feroz em palco que também morreu jovem - portanto, era matéria apetecível para um biopic. Mas o ambiente da cinzenta e industrial Manchester do final dos anos 70 que rodeava os Joy Division era mais austero que a costeira e soalheira Los Angeles dos Doors. Talvez por isso se justifica que "Control" (de 2007), o biopic sobre Ian Curtis e os Joy Division tenha sido filmado a preto e branco por quem os fotografou tão bem em vida, sem recurso à cor: o cineasta e artista visual holandês Anton Corbijn. Ian Curtis já tinha sido recriado na grande tela, mas no filme bem mais humorístico "24 Hour Party People" (de Michael Winterbottom, em 2002) sobre a editora de culto de Manchester, Factory, onde o anti-herói era o idealista editor Tony Wilson, alterado pela personalidade forte do ator Steve Coogan.

   

Lendas americanas da música (logo, personagens de Hollywood)
É natural que a grande fábrica cinematográfica de Hollywood se agarre mais tarde ou mais cedo às lendas musicais do seu país. A biografia de uma cantora triunfal que passou tormentas como Tina Turner dá automaticamente um bom guião de um filme tipicamente americano onde o sucesso final é importante. Esse projeto ganhou corpo em "What's Love Got to do With It" de Brian Gibson, onde o músico e ex-marido Ike é retratado como o mau da fita, o homem que batia em Tina. De alguma maneira, este filme pode ser entendido como um biopic também de Ike & Tina Turner, uma das grandes duplas de soul da história. O fundador da soul, que portanto fundiu o gospel com o r&b como que combinando o céu com o inferno, Ray Charles, teve direito ao uso do primeiro nome, "Ray" (de 2004, realizado por Taylor Hackford), no título do filme sobre a sua vida: o menino pobre e cego que se torna uma fera do piano. Ray Charles não podia ter tido encarnação mais real e perfeita que a interpretação do ator Jamie Foxx, chamado a palco para receber o merecido Óscar. Outro filme intenso que consegue recriar o que aconteceu foi "Walk the Line" de James Mangold (2005), sobre os anos turbulentos do grande rebelde do country Johnny Cash, tomado na alma e no corpo pelo ator Joaquin Phoenix (que curiosamente Johnny Cash muito admirava). O magnetismo de Cash com a sua alma gémea June Carter (interpretada fervorosamente por Reese Witherspoon) dá uma grandiosidade romântica a este bravo filme.

Melhor que uma estátua, só o agigantamento no grande ecrã. Outros monstros históricos da música americana ganharam vida no corpo de atores e em película, como a referência da folk Woody Guthrie  (em "Bound for Glory" de Hal Ashby, de 1976), a cantora country Loretta Lynn (em "Coal Miner's Daughter" de Michael Apted, de 1980), a diva do jazz Billie Holiday (em "Lady Sings the Blues" de Sidney J. Furie, de 1972) ou o saxofonista de jazz Charlie Parker (em "Bird", de 1988), este último pela mão de um grande cineasta e melómano como Clint Eastwood. As lendas do rock & roll dos primórdios, Buddy Holly e Ritchie Valens, que morreram no fatídico voo "em que a música morreu" de 1959, mereceram à vez os seus biopics, "The Buddy Holly Story” (de Steve Rash, de1978) e "La Bamba" de Luis Valdez (1987).

À sombra de Hollywood, os arredores da dureza
Por trás do glamour das palmeiras, das praias e das mansões de Los Angeles, a poucos quilómetros dos estúdios de Hollywood, há uma cidade mais dura com subúrbios violentos, como os quarteirões de Compton, onde cresceu o coletivo de hip hop N.W.A. O percurso musical do grupo envolveu o que as suas ruas já tinham: armas de fogo, conflitos com a polícia e drogas. Já há um biopic sobre os N.W.A., "Straight Outta Compton", o título do álbum de 1988 que os projetou. Mas Hollywood também captou no seu radar o rock underground da cidade, como as mázonas The Runaways, as mães musicais das riot grrrls como as L7 ou as Babes in Toyland. "The Runaways", de Floria Sigismondi (2010), é o nome do filme que as tornaram ainda mais famosas do que durante a sua existência na segunda metade dos anos 70. Não faltam drogas, nem discussões, tudo o que ajuda um biopic, portanto.   

 

Criar em vez de recriar
Há alguns biopics de músicos que preferem a etapa seguinte da ficção: a criação pura e dura, fintando o compromisso de reavivar a papel químico tudo o que aconteceu. "The Rose", de Mark Rydell (1979), é um desses filmes, mas com uma inspiração óbvia em Janis Joplin. Olhar para a interpretação de Bette Middler é como sentir o fantasma da malograda blues-rocker. O cineasta Todd Haynes interessou-se pela história da música, só que na competência de ficcionista, aproximando-se dos acontecimentos, mas inventando personagens com outros nomes. Foi o que fez com "Velvet Goldmine" (de 1978), só para contar a história do movimento do glam-rock do início dos anos 70. Quando quis abordar a vida de Bob Dylan em "I'm Not There" (de 2007), optou por desmontar o músico em seis personagens diferentes, correspondentes a cada uma das suas fases ou facetas, com uma mulher a interpretá-lo, Cate Blanchett. Já Eminem optou por ser ele mesmo a interpretar o biopic da sua vida, em "8 Mile" de Curtis Hanson (de 2002), mas com um nome diferente, o do rapper branco B-Rabbit. Qualquer semelhança com a realidade não será pura coincidência.  

 

Como se traduz biopic para francês?
Como potência cinematográfica europeia, a França prefere ser ela a retratar as suas maiores referências musicais do que a máquina forasteira americana. "La Vie En Rose", de Olivier Dahan, é o grande filme sobre Edith Piaf, que teve uma vida tão rocambolesca quanto o seu talento e carisma. O mesmo se pode dizer de Serge Gainsbourg, cuja vida estava mesmo a pedir um filme: foi o que fez o realizador Joann Sfar em "Gainsbourg (Vie héroïque)" (de 2010), sobre o rocker que nunca teve medo das polémicas.
 


 

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