A música que ajudou a unir o coração da Alemanha

 09 de novembro de 2019

 

A 9 de novembro de 1989, já com a Guerra Fria a arrefecer de vez, o mundo assistiu à queda do Muro de Berlim, um símbolo de betão erguido no coração da Alemanha, ao ponto de parti-lo em dois.

Antes de mais, importa fazer uma breve contextualização. Com a consequente divisão da Alemanha, no final da II Guerra Mundial, Berlim foi dividida em quatro setores de ocupação: o soviético, o americano, o francês e o inglês. As turbulentas relações, entre as forças comunistas de leste e as posições ocidentalizadas dos aliados, originaram a criação de dois blocos: a República Federal Alemã (RFA), a parte ocidental, e a República Democrática Alemã (RDA), liderada pela potência soviética. Em 1961, e porque era frequente assistir à debandada de pessoas do lado comunista para a Alemanha Ocidental, o muro começou a ser construído. Foi derrubado em 1989. A reunificação da Alemanha foi oficializada em 1990.
 
Durante 28 anos, a Alemanha esteve fisicamente dividida. Duas partes, duas realidades distintas, duas moedas, duas ordens políticas divergentes e duas formas de existir. Havia um muro de pedra a separar vidas. A construção em betão, cinzenta, fria e implacável, cortou ligações familiares, de amizade, românticas e de vizinhos que se saudavam na rotina dos dias. Encurtou histórias. A barreira palpável, com uma extensão de vários quilómetros e cerca de cem metros de largura, servia também como divisória simbólica da divisão do mundo. Com postos de vigia, um atemorizador arame farpado e pontos de controlo, o desafio legítimo de chegar ao outro lado era, muitas vezes, uma questão de vida ou de morte. Nem sempre os desafiadores legítimos da norma instituída tiveram um final feliz, antes pelo contrário.
 
Foi necessário esperar quase três décadas para devolver a Berlim, e à Alemanha, as alegrias da unificação e o prazer do reencontro. Hoje, mesmo à distância de trinta anos, ainda conservamos as imagens que invadiram as televisões na época: pedaços do "muro da vergonha" grafitado no chão berlinense, os quentes e demorados abraços entre as partes e os eufóricos brindes à união. Esta é a parte feliz. O que também não podemos esquecer é a sombra e os fantasmas do isolamento, nem as consequências da divisão que levaram mais tempo a mitigar. São memórias às quais devemos respeito. Importa guardá-las. 

Importa também refletir sobre o papel que a música teve neste movimento provocado pelo "vento da mudança", como ainda cantam os Scorpions no simbólico 'Wind of Change', editado em 1990. Para muitos, é considerado o hino não oficial da queda do muro. A banda alemã compôs o tema inspirada numa viagem que fez a Moscovo para participar no Moscow Music Peace Festival. Por ser alemã, não só ficou impressionada com a boa receção que teve em solo soviético, como olhou para o evento como uma possibilidade de convivência entre diferentes visões políticas, sociais e culturais. 

Talvez tenha sido um "momento mágico" de clarividência de um amanhã mais brilhante no rescaldo de uma "noite de glória". 
 


A verdade é que, da edificação à queda, o muro - físico ou figurativo - inspirou canções e mobilizou artistas que ajudaram a derrubá-lo com um superpoder, o da música.

David Bowie, herói por um dia em Berlim

O nome de David Bowie, que viveu em Berlim durante a década de setenta, tem importância no capítulo da História dedicado às atribulações que levaram à queda do muro. Muitos consideram que o concerto que o músico deu em 1987, na parte ocidentalizada de Berlim, "fortaleceu os braços" e agitou ainda mais a inquietação que levou à demolição do muro, apenas dois anos depois. O icónico concerto de Bowie teve lugar na Platz der Republik, no âmbito de um festival que contou com outros nomes, como os Genesis ou os Eurythmics. Como o palco estava posicionado relativamente perto do muro, a música atraiu milhares de pessoas da parte Leste que queriam ouvir o concerto que estava a acontecer do outro lado. Todos queriam viver e sentir a experiência, não havia divisão que pudesse impedir isso.   

Numa entrevista dada, em 2003, à Performing Songwriting, David Bowie confessou que o momento fê-lo chorar. "Estava em lágrimas. Estavam milhares de pessoas do outro lado, perto do muro. Foi como se tivesse sido um concerto duplo em que o muro fazia a divisão. Podíamos ouvi-los a aplaudir e a cantar do outro lado. Meu Deus, ainda agora fico chocado. Partiu-me o coração e nunca fiz nada igual na minha vida desde aí, acho que nunca farei. Foi tão comovente”, afirmou o músico britânico. 'Heroes' foi uma das canções que se ouviram em ambos os lados. Escrita e gravada precisamente em Berlim, dez anos antes, foi inspirada num encontro romântico, que aconteceu perto do muro, entre o produtor de Bowie, Tony Visconti, e uma cantora dos coros, Antonia Maass. A canção, uma sublime obra de arte, ouviu-se como "uma oração", como também disse Bowie. Ouviu-se para lá do que o homem tenta separar.

No meio do concerto, Bowie dirigiu-se às pessoas, que estavam do lado Leste, em alemão. Era importante entregar a mensagem. "Enviamos os nossos cumprimentos aos amigos que estão do outro lado do muro". O que David Bowie não sabia é que, nesse momento, algumas pessoas que o ouviam do lado oriental estavam a ser detidas e agredidas pelas autoridades. Entre gritos e palavras já cansadas de esperar, ouvia-se, "o muro tem de cair".  
 

 

Bruce Springsteen levou a Berlim a linguagem das afinidades, o rock n' roll

Foi no dia 19 de julho de 1988 que Bruce Springsteen deu um concerto demolidor na Berlim Oriental. A noite foi histórica. A certeza do poder da música cimentou-se mais que o betão que afastava os lados. Com uma multidão de perder de vista aos pés de Springsteen, o rock n' roll voltou a servir de catarse aos sentimentos latentes de inquietação e ao cansaço de clausura. O convite feito a Bruce, pela Free German Youth (FDJ), teve a intenção velada de "libertar" alguma tensão entre a população, como se uma noite "com algum rock" pudesse apaziguar sensibilidades mais irrequietas a pedir liberdade. Claro que não foi esse o efeito que teve na massa humana que recebeu o músico de braços no ar. Como escreveu o próprio, na autobiografia "Born To Run", "o rock n' roll é uma música de afinidades. Quanto mais as demonstramos, mais profundo e empolgante se torna o momento. Na Alemanha de Leste, em 1988, o que estava em jogo era um desejo comum a ambos os lados que explodira na libertadora destruição do Muro de Berlim pelo povo alemão"

O concerto durou quarto horas. Bruce Springsteen tocou 32 canções e também dirigiu algumas palavras ao público em alemão, tal como fez Bowie, um ano antes. "Não estou aqui a representar nenhum governo. Vim para tocar rock n' roll para vocês com a esperança de que um dia as barreiras sejam derrubadas. No final do discurso, Springsteen tocou uma versão do simbólico 'Chimes of Freedom', de Bob Dylan. A multidão, eufórica e ávida por abertura e mudança, aplaudiu fervorosamente, com o coração e a vida nas mãos. O concerto de Bruce Springsteen voltou a dar "força aos braços" e voz à vontade de derrubar barreiras e resgatar afinidades.
 


The Wall Live in Berlin de Roger Waters

No verão de 1990, Roger Waters, sobejamente conhecido pela voz política e socialmente ativa que mantém até hoje, conseguiu reunir mais de trezentas mil pessoas na chamada "terra de ninguém", entre Potsdamer Platz e o Portão de Brandemburgo, para celebrar a queda do muro que tinha acontecido oito meses antes. O espetáculo teve "The Wall" - o icónico álbum dos Pink Floyd - a servir de alinhamento, sendo que foi tocado pela primeira vez por Waters depois de sair dos Pink Floyd.   

"The Wall Live in Berlin" é considerado como um dos maiores eventos comemorativos da viragem histórica que se cumpriu com o fim do muro que dividiu a cidade e tudo o resto. Waters convidou uma lista invejável de artistas que fizeram questão de subir ao palco para enaltecer o momento. Scorpions, Cindy Lauper, Joni Mitchell, Bryan Adams, Van Morrison, Marianne Faithfull, Sinead O'Connor ou Paul Carrack foram alguns dos músicos convidados. O espetáculo acabou com todos juntos no palco. Ouviu-se 'The Tide Is Turning', uma das canções que Rogers Waters incluiu no disco a solo "Radio K.A.O.S.".
 


Um grande dia para a liberdade

A 'Great Day for Freedom', do álbum "The Division Bell" (1994), foi escrita por David Gilmour. No início, a canção, que tem no título a palavra "liberdade", enaltece o contágio imediato do otimismo que a Alemanha e o mundo viveram há trinta anos.

Na letra, apesar do começo auspicioso, com vista desafogada para o sonho de um mundo unido, à medida que Gilmour continua a cantá-la, a realidade, com a passagem do tempo, começa a esbater a euforia do tal "momento mágico", sublinhando a ideia de que a "liberdade" e a "união" são conceitos que precisam de manutenção. Ainda hoje. 

 


 

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