Afonso Cabral: Os nossos dias por cá

Vera Marmelo
 31 de março de 2020


Da minha varanda vejo o mar, hoje sem um único barco à vista. Tenho impressão que são menos a cada dia que passa, o que só ajuda a tornar aquele azul todo ainda mais imponente. 

É a minha grande sorte, um verdadeiro privilégio - viver num bom apartamento, com espaço suficiente para o miúdo correr um bocado e com a tal varanda. Nunca como hoje tinha dado tanta importância àquele pedaço de metro e meio por seis metros (uma estimativa a olho nu, os meus amigos mais matemáticos corrigir-me-ão em breve, certamente). Tornou-se na nossa "rua". Quando o meu filho diz que quer ir brincar "lá fora", quer dizer na varanda. Quando nos apetece almoçar fora, é na varanda. Nós, a roupa no estendal e o mar ali ao fundo a relembrar-nos da imensidão do mundo exterior.

Cá em casa não arriscamos nada. A minha cara-metade (cara-melhor como me disse uma vez a minha avó por delicioso engano) está grávida de 27 semanas. Esperamos o nosso segundo filho. Ainda não se sabe muito sobre os efeitos do covid sobre as grávidas e os bebés, mas quaisquer que sejam, não hão de ser benéficos com certeza, por isso não arriscamos. Passamos os dias a procurar formas de entreter o mais velho - dois anos e meio de energia pura e infinita. Já houve quem nos sugerisse montar uma daquelas rodas dos hamsters e torná-lo numa espécie de gerador eléctrico, sempre poupávamos nas contas. A Bárbara (é assim que se chama a minha cara-melhor), é claramente mais hábil e engenhosa do que eu a encontrar formas de o entreter. Ainda bem, não sei quantas mais vezes aguento tocar o Old Macdonald Had a Farm e o Baby Shark.

Nos raros momentos de quase silêncio, tento aproveitar as redes sociais para matar saudades da família e dos amigos e para fazer pequenos directos. Vou tocando umas versões, algumas delas pedidas por quem me segue por lá. Ajuda-me a manter a mente sã. São pequenos objectivos a cumprir que dão algum semblante de produtividade aos meus dias. Aprender a tocar a música x ou y e ir tocá-la para um público virtual. Nos dias que correm, é o mais próximo que existe a dar um concerto e o pico de adrenalina é quase semelhante.

Se estes tempos de isolamento me permitiram algum tipo de descoberta interior, foi a lembrança que sou viciado em tocar e em dar concertos. Até de ensaios tenho saudades (e eu nem gosto de ensaios) - vou tentar não me voltar a esquecer.

Diariamente, o calendário no meu telefone relembra-me da vida que estava programada mas que não está a acontecer. Alguma coisa como: "Lembrete - às 21h, ensaio com os You Can't Win, Charlie Brown. Pouco trânsito, deverá chegar ao seu destino em 30 minutos". Gosto destes avisos, sabem a normalidade; ou pelo menos ao antigo normal.

E enquanto não voltamos à velha rotina, vamo-nos habituando a esta. Mais cuidadosa, mais pequenina, mas com uma noção maior de que estamos todos ligados, para o bem e para o mal. Aqui em casa esperamos os 3 (e meio), como tantos outros, com a serenidade e positividade possível, pelos dias em que a varanda volta a ser apenas uma varanda, pelos abraços dos amigos, pelos ensaios e os concertos e pelo regresso dos barcos ao mar.

Afonso Cabral
 

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